Artigo Profissional
03.06.2026
Por: Virgínia Marques | Nutricionista na área de Fertilidade e Gravidez
O impacto das dietas restritivas na fertilidade feminina
Numa sociedade que valoriza a magreza, pode levar mulheres a seguir regimes alimentares restritivos, e por isso, é urgente falar sobre o que estas práticas podem custar à saúde reprodutiva. Restrições alimentares severas podem silenciar o sistema reprodutor. Dietas muito baixas em calorias, a exclusão de grupos alimentares inteiros ou a restrição severa de macronutrientes, são estratégias que o organismo feminino interpreta como estado de “ameaça” e entra em modo de “alerta”.
Quando isto acontece, o organismo pode deixar a reprodução para segundo plano. O eixo hipotálamo-hipófise-ovário, que é a central de comando da fertilidade, pode ser afetado pela privação de nutrientes. A regulação do ciclo menstrual, depende deste eixo hormonal que é extremamente sensível ao balanço energético. Quando a ingestão calórica é insuficiente para as necessidades do organismo, o funcionamento do hipotálamo é afetado, diminuindo a libertação de uma hormona chamada de GnRH, o que provoca uma cascata de alterações hormonais podendo levar a ovulação irregular ou até mesmo ausência de menstruação. Isso acontece porque dietas restritivas podem comprometer a ingestão de nutrientes críticos para a função reprodutiva.
A exclusão de gorduras, que é muito comum em regimes de emagrecimento, assim como a restrição de hidratos de carbono em excesso, pode comprometer o normal funcionamento do eixo reprodutivo. O défice de zinco, ferro, vitamina B6, ácido fólico e selénio, frequentes em regimes muito restritivos, pode afetar a maturação ovocitária, a implantação e o suporte lúteo, reduzindo a probabilidade de conceção. A tiroide também paga o preço. A tiroide também é sensível à disponibilidade energética e aos défices de micronutrientes específicos. Sabe-se que o bom funcionamento da tiroide é essencial para a maturação folicular, para a qualidade ovocitária e para a preparação do endométrio para a implantação. Adicionalmente, dietas pobres em iodo, selénio e zinco, nutrientes indispensáveis à síntese das hormonas tiroideias, agravam ainda mais esta disfunção. Uma tiroide a trabalhar abaixo do ideal traduz-se em ciclos irregulares, ovulação comprometida e maior risco de aborto espontâneo, tornando a saúde tiroideia um pilar incontornável da fertilidade feminina. É importante referir que nem todo o défice calórico compromete a função reprodutiva, mas deve ser bem estruturado. Quando a fertilidade é um objetivo, a abordagem nutricional deve garantir suficiência energética e densidade nutricional, não a restrição severa. Comer bem, e o suficiente, é essencial para preservamos e cuidarmos da saúde reprodutiva.