ARTIGO PROFISSIONAL

ARTIGO PROFISSIONAL

Por: Iara Rodrigues | Nutricionista 1344N

Quase todos os dias aparece um novo “culpado alimentar”.

Um dia é o glúten. No outro são os hidratos. Depois a lactose, a fruta, o pão, o leite ou qualquer outro alimento que esteja no centro da moda do momento.

Mas a verdade é esta: a inflamação no organismo raramente nasce de um único alimento isolado.

Na maioria das vezes, nasce da repetição.

Daquilo que se come todos os dias.
Do sono que falta.
Do stress que se acumula.
Do sedentarismo.
Do excesso de produtos ultra-processados.
Do corpo a tentar compensar, dia após dia, estímulos que nunca chegam a parar.

A inflamação nem sempre aparece como dor. Muitas vezes manifesta-se de forma mais silenciosa: fadiga constante, barriga inchada, alterações intestinais, retenção de líquidos, pele mais reativa, dificuldade em recuperar energia ou aquela sensação persistente de “corpo pesado”.

Por isso, mais importante do que demonizar alimentos, é aprender a perceber o que o corpo sente quando um padrão se repete.

 

Açúcar: a montanha-russa metabólica

O açúcar é um dos ingredientes mais presentes - e mais escondidos - na alimentação moderna.

O problema não é comer uma sobremesa ocasionalmente. O problema é viver o dia inteiro entre picos e quebras de açúcar.

Quando consumimos açúcar em excesso, a glicemia sobe rapidamente e o organismo produz insulina para tentar controlar esses níveis. Pouco tempo depois, podem surgir quebras de energia, mais fome, maior vontade de doces e mais cansaço.

É como acender e apagar luzes constantemente dentro do corpo.

Com o tempo, este ciclo repetido pode favorecer um estado inflamatório mais persistente. A energia torna-se mais instável, o intestino pode ficar mais irritado, a retenção pode aumentar e a pele também pode refletir esse desequilíbrio.

Além disso, o açúcar atua nos mecanismos de recompensa cerebral. Quanto mais frequente é o consumo, maior pode tornar-se a vontade de continuar a consumir.

Muitas pessoas acreditam que precisam de açúcar porque se sentem cansadas. Mas, em muitos casos, o excesso de açúcar pode estar precisamente a contribuir para esse cansaço.

E ele aparece muitas vezes onde menos se espera: cereais “saudáveis”, granolas, iogurtes aromatizados, barritas, bebidas vegetais, molhos prontos, sumos e produtos vendidos como opções equilibradas.

Às vezes, aquilo que parece “fit” no rótulo pode ser apenas uma sobremesa com melhor marketing.

 

Sal: o inflamatório silencioso

O sal é essencial ao organismo. Precisamos dele para várias funções vitais.

O problema não está no sal usado pontualmente para cozinhar. Está, sobretudo, no excesso escondido nos produtos ultra-processados.

Muitas pessoas acreditam que consomem pouco sal porque não adicionam muito tempero à comida. No entanto, ao longo do dia, podem estar a ingerir grandes quantidades através de pão, fiambre, queijos, sopas instantâneas, snacks, molhos e refeições embaladas.

Quando existe excesso de sódio, o corpo tende a reter mais água. E isso pode traduzir-se em inchaço, pernas pesadas, barriga mais distendida e sensação de retenção constante.

É como se o organismo funcionasse como uma esponja.

Além disso, o excesso de sal pode aumentar a pressão sobre os vasos sanguíneos e alterar a perceção do paladar. Quanto mais sal consumimos, mais o paladar se habitua a sabores intensos - e mais “sem graça” parecem os alimentos simples.

Um exemplo muito comum é a clássica combinação “pão de forma integral + fiambre de aves”. Parece uma escolha equilibrada, mas pode transformar-se facilmente numa refeição rica em sal, aditivos e ultra-processamento.

E muitas vezes aquilo que se atribui ao “glúten” ou a uma suposta intolerância alimentar pode estar relacionado, afinal, com excesso de sal, aditivos e produtos ultra-processados repetidos diariamente.

 

Álcool: o socialmente normalizado

O álcool é uma das substâncias mais normalizadas socialmente.

Mas, biologicamente, o corpo não o reconhece como nutriente. Reconhece-o como uma substância tóxica que precisa de metabolizar e eliminar.

Sempre que ingerimos álcool, o fígado entra em “modo prioridade”. Coloca outras funções metabólicas em segundo plano para conseguir lidar primeiro com o álcool.

É como obrigar o fígado a apagar um incêndio antes de conseguir fazer o resto do trabalho.

As consequências podem refletir-se em pior recuperação física, maior inflamação, metabolismo menos eficiente, mais retenção e pior recuperação muscular.

O álcool também interfere com a qualidade do sono. Muitas pessoas sentem que dormem melhor porque adormecem mais rápido, mas a qualidade do descanso tende a piorar. E um sono pior influência o apetite, a vontade de açúcar, a irritabilidade, a recuperação e a regulação hormonal.

Além disso, o álcool pode irritar a parede intestinal e alterar a microbiota. E o intestino influencia muito mais do que a digestão: influencia imunidade, energia, metabolismo e até humor.

O problema não é brindar ocasionalmente.

O problema surge quando o álcool deixa de ser exceção e passa a fazer parte da rotina semanal.

 

Então existem alimentos inflamatórios?

A resposta mais honesta é: depende.

 

Depende da frequência.
Depende da quantidade.
Depende do contexto.
Depende do padrão alimentar global.
Depende também do estado em que o corpo já se encontra.

 

O corpo humano tolera muito melhor equilíbrio do que extremos.

 

Não é o bolo de aniversário ocasional que inflama o organismo. Muitas vezes, é o “fit” diário, ultra-processado, repetido várias vezes ao dia, sem descanso, sem sono suficiente e sem tempo para o corpo recuperar.

 

Mais importante do que procurar um único culpado alimentar é reconhecer os padrões que o corpo sente todos os dias.

 

Porque a inflamação raramente nasce de um alimento isolado.

Nasce do excesso contínuo.
Da rotina desequilibrada.
Do stress constante.
Do sono pobre.
Do sedentarismo.
Da repetição diária de estímulos que o corpo nunca consegue verdadeiramente compensar.

 

No fim, a pergunta talvez não deva ser apenas: “este alimento inflama?”

Talvez deva ser: “Que padrão estou a repetir todos os dias e como é que o meu corpo está a responder?”