ARTIGO PROFISSIONAL

ARTIGO PROFISSIONAL

Por: Dra. Sandra Neto | Sexóloga

De que forma é que a menopausa interfere com as emoções das mulheres?

"Eu não era assim. O que é que se está a passar comigo?"

Se já te fizeste esta pergunta, quero começar por te dizer uma coisa: não estás a enlouquecer, e não estás sozinha.

Falamos muito dos afrontamentos, das alterações menstruais, do sono. Mas há mudanças que ninguém vê de fora. És tu a chorar com um anúncio na televisão. És tu a perder a paciência com quem mais amas e a sentir culpa cinco minutos depois. És tu a entrar na cozinha e não saberes o que lá foste buscar. É também aquela vontade súbita de cancelar planos e ficar sozinha, ou levares uma crítica que antes deixavas escorregar e ela ficar a doer o dia todo. E porque ninguém vê, torna-se mais difícil de explicar e muito mais difícil de pedir ajuda.

Há uma explicação para isto, e é uma boa notícia, porque tira-te o peso de cima dos ombros e evita que as transformes numa conclusão negativa sobre ti própria.

Na perimenopausa, o teu estrogénio não vai descendo devagarinho, como se costuma pensar. Sobe e desce sem avisar. E o estrogénio não trabalha só nos teus ovários, é ele que ajuda a manter em equilíbrio a serotonina e a dopamina, as substâncias que regulam o teu bom humor. Imagina que alguém está a mexer no botão do volume das tuas emoções sem te pedir licença. E por isso, o que te desorganiza não é a falta de hormonas mas sim esta imprevisibilidade.

Há ainda outra peça. A tua progesterona dá origem a uma substância que funciona como um “travão” desse mesmo botão do volume, quase como um calmante, é ela que normalmente evita que as tuas emoções disparem para o máximo. À medida que os teus ciclos se tornam irregulares, este efeito tranquilizante natural deixa de ser previsível. É por isso que te aparece aquela ansiedade sem motivo, ou sentes o pavio mais curto do que era teu costume.

E a tal névoa mental que sentes? Também tem  uma razão. O estrogénio atua nas zonas do teu cérebro que guardam a memória e que te ajudam a estar atenta e organizada. Por isso as queixas são quase sempre as mesmas: a palavra que não te vem, o nome que se perde a meio da frase, a impossibilidade de fazeres três coisas ao mesmo tempo como antes. Deixa-me dizer-te uma coisa, porque é um medo que ouço muito em consulta e que te quero poupar a ele: na maioria das mulheres, esta névoa é passageira e melhora depois da menopausa. Não é o início de uma demência.

A isto junta-se o teu sono. Acordares várias vezes por noite, meses a fio, rouba-te precisamente as horas em que o cérebro arruma a memória e recarrega a paciência. Qualquer pessoa fica mais irritável assim.

Ainda assim, a tua menopausa não é igual à de mais ninguém. Há mulheres que atravessam esta fase praticamente sem sobressaltos e outras que se sentem completamente assustadas com o que está acontecer com elas. E isso não quer dizer nada sobre ti!

Se a tua tristeza ou ansiedade se arrastarem por semanas e te tirarem o gosto pelas coisas, por favor não esperes que passe sozinha. Fala com alguém ou procura ajuda especializada porque não tens simplesmente de “aguentar” porque estás na menopausa.

Porque não, não és "chata". Estás a adaptar-te a um corpo que mudou as regras a meio do jogo. E continuas a ser tu.