ARTIGO PROFISSIONAL

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A teoria do set point metabólico
Por: Dra. Joana Menezes - Endocrinologia

Todos conhecemos alguém que perdeu peso e recuperou o peso perdido ou até mais. E todos a mesma lengalenga de sempre “não teve força de vontade”, “olha como se pôs” ou pior “foi culpa minha”, “eu descontrolei-me e voltei ao mesmo”.

NÃO! Está na altura de mudarmos a narrativa e de retirarmos este estigma de cima das pessoas que vivem com obesidade. Porque NÃO! NÃO é culpa delas, nem falta de vontade nem preguiça. É uma resposta NORMAL biológica, metabólica, tão normal quanto suar numa sauna, tremer com frio em água gelada ou não se conseguir focar tendo PHDA. Mas como?

O corpo humano comporta-se, em relação ao peso, como um termóstato. Não defende um número exato, à vírgula, mas uma faixa de peso, e trabalha ativamente para se manter dentro dela. É a isto que se chama set point metabólico, ou peso defendido. Quando descemos abaixo dessa faixa, o organismo não fica indiferente: reage (como reage para suar dentro de uma sauna).E reage de forma muito concreta. O gasto energético diminui mais do que seria previsível pela massa que se perdeu - o corpo passa a funcionar com menos combustível do que teria de gastar alguém do mesmo tamanho que nunca tivesse emagrecido (diminuição do metabolismo basal). Ao mesmo tempo, as hormonas que regulam o apetite mudam de posição: a leptina, que sinaliza saciedade, desce; a grelina, que desperta a fome, sobe. O resultado é sentir mais fome, mais craving (desejos) e gastar menos energia (mesmo que mantenha a massa muscular e hábitos de vida saudáveis).

O estudo mais conhecido acompanhou concorrentes de um programa televisivo de perda de peso durante seis anos (Biggest Loser). A maioria recuperou o peso, mas o dado que ficou foi outro: o metabolismo continuava reduzido anos depois, mesmo nos que tinham voltado ao ponto de partida. O corpo mantinha a defesa muito para lá do fim da dieta.

Vista assim, a recuperação de peso deixa de ser um fracasso moral e passa a ser aquilo que é: uma resposta biológica previsível.
Isto não retira responsabilidade a ninguém, mas muda a pergunta, o paradigma e o estigma.
A questão não é porque é que a pessoa não conseguiu manter o peso perdido. É por que razão esperamos que alguém vença, à força de vontade e indefinidamente, um sistema que a evolução afinou durante milénios para nos proteger contra a escassez - sim, isto é uma herança biológica dos nossos antepassados, é uma vantagem adaptativa, evolutiva.

Fica então a pergunta seguinte: o ponto defendido pode mudar? A resposta parece ser que sim, ainda que devagar e sem sabermos prazos nem limites de tempo. Os tratamentos que atuam sobre as próprias vias hormonais da regulação do apetite - a cirurgia metabólica e os fármacos mais recentes - não se limitam a fazer perder peso, lutam contra a resposta de biológica de aumento de fome e craving e parecem baixar o patamar que o corpo defende. É também por isso que, ao suspender o tratamento, o peso tende a voltar. Não é o medicamento que falha; é o ponto defendido que regressa ao que era. Faz mais sentido pensar nisto como se pensa na tensão arterial do que como se pensa num antibiótico.

É justo dizer que a teoria não é consensual na sua forma mais rígida. Há investigadores que defendem modelos mais flexíveis, em que o ambiente, a disponibilidade de comida e os hábitos deslocam esse ponto ao longo da vida. Mas o essencial é aceite: existe uma regulação biológica ativa, e ela não se desliga por decisão.

Na prática, o que daqui retiramos todos - NÃO a culpa não é sua; o corpo NÃO está contra si - está a fazer aquilo para que foi construído.

Os 5 pilares de medicina de estilo de vida: alimentação saudável, atividade física regular, saúde do sono, boa gestão do stress, evicção de substâncias nocivas à saúde.

Desmistificando alimentação saudável, não, a culpa não é da sopa da batata nem do pão do pequeno-almoço. Uma alimentação saudável, à data de hoje, é a mediterrânea, de forma muito simples, a nossa tradicional "roda dos alimentos" da escola primária. A questão está na sua conjugação e nas quantidades. Dar primazia aos micronutrientes (vitaminas minerais presentes por exemplo em legumes frutas) e comer os macronutrientes (hidratos de carbono de libertação lenta, proteínas e gorduras idealmente as boas) em proporção apropriada.

De notar que em pessoas em processo de perda de peso, deve-se reforçar o aporte de proteína para não comprometer a massa muscular.

E sem dúvida alguma nunca deixar o seguimento, nem que seja anual, pelo seu médico, porque o problema não está em perder peso, mas sim em manter o peso perdido.