Artigo profissional

Artigo profissional

Por: Prof. Dra. Mónica Gomes Ferreira, MD, PhD

Especialista em Ginecologia e Obstetrícia | Ginecologia Funcional, Regenerativa e da Menopausa

MS MEDICAL INSTITUTES 

Menopausa: e se os sintomas começassem muito antes da última menstruação?

Quando falamos de menopausa, é frequente pensarmos num momento específico: a última menstruação. Mas, na realidade, as alterações hormonais e os primeiros sintomas podem começar vários anos antes de a menopausa acontecer.

Esta fase de transição chama-se perimenopausa e pode começar, em algumas mulheres, ainda na casa dos 40 anos e, por vezes, antes dos 45. É uma fase fisiológica, mas que pode ter um impacto significativo na qualidade de vida.

E é precisamente aqui que existe ainda muita desinformação.

Não é preciso deixar de menstruar para sentir sintomas

Durante a transição para a menopausa, os níveis de estrogénio e progesterona começam a apresentar maior variabilidade, antes de ocorrer a diminuição hormonal mais marcada característica da menopausa.

Estas oscilações podem traduzir-se em sintomas que muitas mulheres não associam imediatamente às alterações hormonais.

Alterações do sono, cansaço, menor energia, irritabilidade, oscilações de humor, dificuldade de concentração, sensação de “brain fog”, ansiedade, alterações do ciclo menstrual, dores de cabeça ou episódios de calor e sudorese podem surgir durante esta fase.

Em algumas mulheres, estes sintomas aparecem mesmo quando os ciclos menstruais ainda parecem relativamente regulares.

Por isso, uma mulher pode sentir que “alguma coisa mudou”, sem perceber exatamente porquê.

O “brain fog” também pode fazer parte desta transição.

Uma das queixas que mais frequentemente ouço em consulta é:

“Sinto que já não tenho a mesma capacidade de concentração.”

A dificuldade em encontrar palavras, manter a concentração, memorizar informação ou realizar várias tarefas simultaneamente pode ser particularmente frustrante para mulheres profissionalmente muito ativas.

Embora estas alterações cognitivas sejam geralmente ligeiras e multifatoriais, a transição menopáusica pode contribuir para o seu aparecimento. As alterações hormonais, em particular a flutuação dos estrogénios, parecem ter um papel relevante na relação entre a menopausa, o sono, o humor e a função cognitiva.

E quando a isto se junta um sono de pior qualidade, o impacto durante o dia pode ser ainda maior.

Cansaço, irritabilidade e alterações do sono: sintomas que não devem ser desvalorizados

Nem todos os sintomas da perimenopausa são “calores”.

As alterações vasomotoras, como os afrontamentos e os suores noturnos, são muito conhecidas, mas as alterações do sono, do humor e da energia podem ser igualmente importantes.

Uma mulher pode começar a dormir pior, acordar várias vezes durante a noite e, consequentemente, sentir-se mais cansada durante o dia. Pode notar maior irritabilidade ou alterações do humor e sentir que tem menos energia para as atividades que anteriormente fazia com facilidade.

Estes sintomas podem ser confundidos com stress, excesso de trabalho ou simplesmente com “a idade”.

É importante lembrar que a menopausa não é uma doença, mas os seus sintomas merecem ser reconhecidos e tratados quando interferem com a qualidade de vida.

Conhecer a perimenopausa é também uma forma de prevenção.

A menopausa deve ser encarada como uma nova fase da vida e não como o fim de uma etapa.

Conhecer a perimenopausa permite que cada mulher reconheça mais cedo as alterações que estão a acontecer no seu organismo e procure informação e acompanhamento adequado.

A abordagem deve ser sempre individualizada. Alimentação equilibrada, exercício físico regular, sono adequado, gestão do stress e hábitos de vida saudáveis são fundamentais. Dependendo dos sintomas, da sua intensidade e do contexto clínico de cada mulher, podem também existir outras estratégias terapêuticas.

Não devemos esperar pela última menstruação para começar a cuidar da saúde da mulher nesta fase da vida.

A transição menopáusica pode começar anos antes e, reconhecer os sinais, é o primeiro passo para que essa transição seja vivida com mais informação, confiança e qualidade de vida.