ARTIGO PROFISSIONAL
02.11.2026
Por: Sandra Neto, Sexóloga e Terapeuta de Casal
Tu não existes só para cuidar dos outros
Conheces aquele cansaço que não passa a dormir? Aquele que vem de estares sempre “ligada”, a pensar em tudo e em todos, e de, ao fim do dia, ainda sentires que ficou alguma coisa por fazer?
Eu conheço-o. E vejo-o todos os dias nas mulheres com quem trabalho, de idades, classes socioeconómicas e vidas muito diferentes. Há uma frase que se repete várias vezes: “Se eu não fizer, quem faz?”
Desde pequenas, aprendemos a cuidar. Vimos as nossas mães e avós cuidar de filhos, companheiros, casa, pais, de toda a gente que precisasse. Ninguém nos disse diretamente que ser uma boa mulher é estar sempre disponível, mas aprendemos através do que crescemos a observar. E foi ficando em nós, como se viesse no ADN, a ideia de que o nosso valor depende do que fazemos pelos outros.
Por isso, quando paramos, vem a culpa. Quando pedimos ajuda, vem o medo de incomodar. Quando alguém faz de forma diferente, vem aquela vontade de ir lá corrigir. E quando ninguém repara no que fazemos, vem uma tristeza silenciosa de nos sentirmos invisíveis.
Não é só impressão tua. Em Portugal, as mulheres dedicam, em média, mais de hora e meia por dia ao trabalho doméstico do que os homens. A isto junta-se a carga mental: saber o que falta no frigorífico, quando é a próxima consulta, de que precisa cada pessoa. Uma agenda inteira na cabeça, mesmo quando já não tens energia para mais nada. A Organização Mundial da Saúde reconhece que as perturbações de ansiedade são mais frequentes nas mulheres. Isso não quer dizer que a carga mental explique tudo, mas diz-nos que a nossa saúde mental também depende do que carregamos e do que esperam de nós.
Muitas de nós julgam que ninguém fará tão bem. Compreendo… Mas pergunto-te com carinho: e se fizerem diferente, é mesmo errado? Às vezes, o controlo dá-nos segurança e faz-nos sentir indispensáveis. No entanto, o preço é a exaustão, a frustração e a sensação de estarmos sozinhas a sustentar tudo.
E até o nosso corpo, de forma sorrateira, reforça a mensagem. Gerar, dar à luz e amamentar cria vínculos muito próprios. Mas isso não significa que tenhamos de carregar o cuidado sozinhas, nem que os outros não possam aprender a cuidar tão bem como nós. Delegar não é perder o controlo, é deixar que a responsabilidade seja realmente partilhada.
Desafio-te a imaginares um dia em que cuidas de ti com a mesma dedicação com que cuidas dos outros. Não precisas de revoluções. Começa por pequenos hábitos:
• Faz mais pausas, nem que sejam de dez minutos, sem justificação e sem seres útil a ninguém.
• Diz “não” sem escreveres uma tese de doutoramento para te justificares.
• Entrega uma tarefa por inteiro e resiste a corrigir o resultado.
• Pergunta-te uma vez por dia “do que é que eu preciso?” , e claro, ouve a resposta.
• Marca o teu tempo na agenda aquele café com uma amiga, aquela caminhada, aqueles minutos de silêncio que não servem para produzir nada.
• Descansa sem a casa estar impecável e deixa de acreditar que tens de chegar ao limite para merecer uma pausa.
Tu não existes só para ser mãe, filha, companheira, profissional ou a pessoa a quem toda a gente recorre. Há partes de ti que não têm de estar ao serviço de ninguém, e que também merecem tempo, atenção e espaço.
Não é porque és capaz de fazer tudo que tens de ser tu a fazê-lo. Afinal, quando é que vais deixar de ser a última pessoa da tua própria lista?