ARTIGO PROFISSIONAL
17.06.2026
Por: Miguel Silva Miranda, médico neurologista e somnologista SleepLab
A IMPORTÂNCIA DE UM SONO REPARADOR / O QUE O NOSSO CORPO FAZ QUANDO ESTAMOS A DORMIR
Dormir não é “desligar”. É, na verdade, um dos processos mais sofisticados e essenciais do nosso corpo. Enquanto dormimos, o cérebro trabalha intensamente: organiza memórias, regula emoções, elimina toxinas e reequilibra hormonas fundamentais para a nossa saúde. O sono é tão importante quanto a alimentação ou o exercício físico e, ainda assim, continua a ser um dos pilares mais negligenciados do bem-estar.
Quando dormimos mal, não ficamos apenas cansados. Ficamos mais irritáveis, mais ansiosos e com maior dificuldade de concentração. O cérebro perde capacidade de processar emoções e consolidar aprendizagens, o que explica porque uma noite mal dormida pode afetar o humor, a produtividade e até as relações pessoais. Além disso, a privação de sono torna-nos emocionalmente mais reativos: pequenas contrariedades parecem maiores, a tolerância ao stress diminui e reagimos de forma mais impulsiva ou negativa às situações do dia a dia. Dormir bem é cuidar da saúde mental.
Mas há mais: durante o sono profundo, o cérebro ativa um verdadeiro “sistema de limpeza”, eliminando substâncias tóxicas que se acumulam ao longo do dia. Entre elas estão proteínas associadas ao desenvolvimento de doenças neurodegenerativas, como a doença de Alzheimer. Dormir pouco, de forma crónica, pode comprometer este mecanismo natural de proteção cerebral.
O impacto também se sente no peso e no apetite. Quem dorme pouco tende a sentir mais fome e maior vontade de consumir alimentos ricos em açúcar e hidratos de carbono. Isto acontece porque o sono influencia diretamente hormonas que regulam a saciedade. Não é apenas “falta de força de vontade”: muitas vezes, é o corpo a reagir à privação de descanso.
Além disso, noites mal dormidas aumentam o risco de hipertensão, enfarte, diabetes, obesidade e enfraquecimento do sistema imunitário. Dormir menos de 6-7 horas por noite, de forma consistente, tem sido associado a maior risco cardiovascular e inflamação crónica. O sono é também essencial para o equilíbrio do sistema imunitário: é durante o descanso que o organismo regula processos inflamatórios e reforça as suas defesas naturais. Quando dormimos mal, o corpo entra num estado de “alerta” persistente, aumentando substâncias inflamatórias que, a longo prazo, podem fragilizar a imunidade e aumentar a suscetibilidade a infeções. Não é por acaso que, depois de períodos de privação de sono, ficamos mais vulneráveis a constipações, gripes e sensação geral de desgaste físico.
A boa notícia?
O sono pode e deve ser tratado como prioridade. Um sono reparador é um investimento direto na saúde física, emocional e cognitiva. E há sinais que não devem ser ignorados: ressonar de forma intensa, acordar cansado todos os dias, dificuldade persistente em adormecer ou sonolência excessiva durante o dia merecem avaliação especializada.
Num mundo que glorifica a produtividade constante, talvez esteja na altura de percebermos que dormir bem não é preguiça é saúde.